Uma estrada de chão, de muito chão. De alguma forma um turista planejou a sua viagem, fez as malas e partiu para o seu destino. Muitos, já imaginando os lugares, vendo na internet roteiros completos de trilhas, lugares onde comer, pessoas ilustres para visitar, dicas de como arrumar a bagagem, lavar a roupa etc. Cada um de sua maneira, mas quase todos iguais.
 

Pelo menos, foi assim comigo. Viajei várias vezes para a Chapada Diamantina examinando dentro de mim o que eu queria com aquilo, perguntava quanto eu ia crescer com aquela viagem. A ansiedade pulsava no meu coração para saber em quantos lugares, dentre os milhares de atrativos da Chapada, eu poderia ir. Eu, eu, eu. Eu sempre pensava em mim. A cada cachoeira que eu ia, ficava incomodado pelo turismo de massa. Mas eu também não era massa daquele turismo? Como me encaixaria nessa dicotomia, reclamando de gente, mas ao mesmo tempo, sendo eu gente também? O turismo era o tema central desse trabalho, como citei na introdução. O tema central mudou, mas é impossível dissociar a palavra turismo de qualquer lugar da Chapada Diamantina. Narro aqui o que senti, o que vi e um pouco do que vivi sendo turista.
 

Mesmo nas cidades mais famosas da Chapada, percebe-se que quem não encontrou uma maneira de viver do turismo, vive à margem dele ou apenas sobrevive. Salvo em cidades em que a agricultura é forte, como Mucugê e Ibicoara, aqueles que não são atores desse relativamente novo turismo – e que, evidentemente não têm a melhor das formações acadêmicas, e não podem ser juízes, bancários etc. – sofrem. Sofrem com a seca, com a falta de diversidade de trabalho, sofrem por serem colocados de lado nesse lugar que um dia foi seu. “Esse processo (de incentivo ao turismo) desencadeou, na cidade, um movimento de especulação imobiliária que levou ao deslocamento de um grande número de moradores, forçados a vender suas casas no centro de Lençóis, indo morar em áreas mais afastadas da cidade.”
 

A afirmação feita por Francisco Emanuel Matos Brito, no livro Os Ecos Contraditórios do Turismo na Chapada Diamantina (ed. EduFBA), chamou a atenção. Claro que Lençóis é uma cidade muito antiga, o trabalho com o turismo já tem mais de 20 anos por lá, mas fiquei pensando no que vai ser de Lençóis, e de toda a Chapada Diamantina, daqui a 20 ou 30 anos. Desde 2005, ano de publicação do livro de Brito, muita coisa melhorou na cidade de Lençóis, mas nem tudo. A chegada de gente e de mercado, capitalismo e ecologia, traz sempre uma série de mudanças para o lugar. Hoje, a Chapada Diamantina é o primeiro roteiro em turismo de natureza no País. Está tanto no caminho de grandes aventureiros quanto daqueles que só procuram contato com a natureza, um pouco de paz.
 

Ao primeiro olhar, chegando pela cidade de Lençóis, pelo portal da Chapada, ou quando se pesquisa na internet ou em revistas de turismo, o que se vê é um lugar desenvolvido, pronto para receber as pessoas. Mas na realidade, esse turismo não alcança a massa da população, apesar de gerar, sim, emprego, o rendimento não fica com essas pessoas. E os turistas com isso? Bem, não falo por todos, mas deveríamos pensar um pouco no que isso vai dar, no que vai ser o Parque Nacional da Chapada Diamantina daqui a alguns anos. Como serão as relações socioeconômicas, a política, a natureza a médio prazo? O que podemos fazer como turistas, como viajantes, como humanos, para auxiliar que o futuro seja melhor? Não vejo que seja preciso se mudar, abrir uma ONG por lá, mas o que podemos fazer em uma semana, em um final de semana, nas horas em que estivermos nesse lugar. Quais são os meus pequenos gestos que podem fazer a diferença?


A palavra ecoturismo tem ganhado força e significado. Muitas pessoas se encantam pelo prefixo eco, acham bonito sentirem-se ecológicas. Entretando, turismo só vai ser realmente ecológico quando atingir as questões socioeconômicas, quando os que vêm de fora se preocuparem com os de dentro, quando as pessoas que moram nesses lugares se sentirem reconhecidas, quando os turistas se sentirem responsáveis, enquanto a Chapada não se transforme em “mais um destino intensamente explorado e abandonado pelos mesmos ecoturistas que partirão em busca de novas áreas ecologicamente corretas” (BRITO, 2005).

 

Viajando de carro ao redor do Parque, de norte a sul, de Lençóis a Ibicoara, veem-se pequenas vilas e povoados, alguns vendem mel, outros cachaça, muitos pedem alguma ajuda. A seca é uma realidade. Indo de Lençóis a Andaraí dá em média duas horas. Partindo de Andaraí, mais duas horas até chegar ao Baixão. Na região, muitos assentamentos sem-terra procuram algum desenvolvimento agrário. Alguns povoados de até cinco mil habitantes, pequenos municípios, todos trabalham por uma vida melhor. Todos dormem ao lado do paraíso. 

A Serra do Sincorá guardou ali por muito tempo um complexo com quatro cachoeiras – Bom Jardim, Herculano, Roncadeira e Encantada – e só agora permitiu que nós chegássemos até lá.  Desse lado da serra, a vida é mais difícil do que no norte, e parece que ninguém se interessou muito em viajar por aqui. Os assentamentos são a última fronteira antes das cachoeiras. Salvo alguns fotógrafos experientes que vivem na Chapada Diamantina, alguns biólogos e antropólogos e, de poucos anos para cá, um ou outro turista mais aventureiro, o lugar ficou desconhecido. Até o momento que escrevi esse texto, apenas o Guia para a Chapada Diamantina tinha publicado uma nota sobre a Cachoeira Encantada e mais nada.

 

Para entrar na Cachoeira do Bom Jardim e Herculano passa-se pelo Assentamento Europa; para a Cachoeira Encantada, tem de passar pelo Baixão. Agora, imagino o que vai ser dessa relação daqui a cinco, dez ou vinte anos. O Baixão não vai se tornar uma Lençóis. As pessoas de lá não têm tal pretensão. Entretanto, práticas boas e ruins devem servir de exemplo para o desenvolvimento desse lugar até então fora do mapa turístico. A relação dos de fora com os de dentro está só começando. Faz pouco tempo que eles têm se preparado para receber visitantes, seja com estrutura de acomodação ou em capacidade de atendimento. Mas isso não pode ser visto como uma coisa ruim. É uma graça que a Chapada ainda tenha guardado possibilidades de o homem plantar flores e coexistir em paz.
 

O turismo, aqui, pode ser diferente porque ainda engatinha. Há guias preparados, mas precisa-se de mais. Famílias recebem pessoas em suas casas, mas existe a necessidade de administrar melhor. Mais jovens precisam se envolver com o turismo, não como atividade principal, porém como uma possibilidade de continuar vivendo ali e cuidando daquele lugar. Essas são algumas das coisas que notei, além da grande vontade de todos de terem uma possibilidade de crescimento, um apoio vindo do turismo. Mas a coragem é pouca quando a demanda é  fraca. O turismo existe, a cada ano mais pessoas têm ido visitar a exuberante Cachoeira Encantada. No tempo em que fiquei no assentamento, três ou quatro vezes Orlando me disse: “Vi carro descendo pra cachoeira”, mas ninguém tinha parado no assentamento, levado alguém de lá para a trilha, seja um guia ou um ajudante, ninguém.


Quando cheguei ao Baixão pela primeira vez, tinha programado para passar uns dias no assentamento, conhecer um pouco das pessoas e seus costumes. Logo na primeira noite, consegui um encontro com a liderança do assentamento. A intenção era deixar claro o tipo de trabalho que eu queria fazer e se eles me autorizariam a registrar imagens. Não poderia ter ouvido resposta mais objetiva: “Você vai levar muita coisa daqui, o que nos dará em troca?”. Em meio a um projeto de conclusão de curso, disse que não poderia prometer muito, mas que tentaria com afinco publicar o projeto, escrever matérias e alertar a futuros visitantes de que ali, para muito além das cachoeiras, existiam pessoas. Figuras que precisam de atenção daqueles que chegam. Não são muitas as exigências, apenas que os turistas, os biólogos e outros que forem até ao Parque Nacional, ou à Cachoeira Encantada, visite-os. Falei que chamaria a atenção das pessoas para a necessidade de o turismo por ali não ser exploratório, mas, sim, de amor e paz para toda a natureza que existe na região, principalmente a humana.