O Baixão é um assentamento sem-terra na Chapada Diamantina, estado da Bahia. À beira do Parque Nacional, guarda reservas naturais desconhecidas e pessoas menos conhecidas ainda. Isso me inspirou a levar essa realidade para o trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, na Faculdade Cásper Líbero, com o objetivo de mostrar que lugar é esse e um pouco da vida dessas pessoas que dormem ao lado do paraíso.  

Meu primeiro contato com as pessoas do Assentamento Baixão não se deu via telefone, muito menos por e-mail. Tentei algumas vezes falar, através de um número de telefone fixo – um orelhão do Assentamento -, por meio do qual eu deveria procurar Orlando, guia local responsável pelas visitações ao Assentamento e à Cachoeira Encantada. Mesmo sem sucesso, na tentativa de conseguir contatar alguém, resolvi seguir viagem e chegar “na cara e na coragem”. Não constava em nenhum mapa como se fazia para chegar lá.

Partindo de Andaraí para Mucugê – sentido sul do parque-, recebi algumas instruções e encontrei uma placa que indicava o sentido, com uma seta e os dizeres “Assentamento Baixão: visite o nosso patrimônio ecológico”. Foram mais duas horas e meia de estrada (que seria uma hora se a pista de terra batida fosse boa, sob um calor que só quem foi ao interior do Nordeste sabe o que isso significa - curvas, buracos, pedras e lavradores gentis que faziam de tudo para indicar a um turista paulista como chegar ao assentamento. Ainda não existem mapas oficiais sobre as estradas que chegam ao Baixão. A Cachoeira Encantada começou a aparecer nos mapas turísticos, apenas, nesse ano de 2012.

Eu, definitivamente, não sabia o que me esperava. Acabei me surpreendendo. À primeira vista, o assentamento figurava como uma pequena vila do interior, com casas de alvenaria, antenas parabólicas, alguns carros e motos rodeando a terra batida. No primeiro bar, perguntei por Orlando , da Associação de Condutores de Visitantes de Itaetê (ACVI), e recebi orientação para me dirigir a uma casa cercada por flores.
 

Logo que buzinei, apareceu Orlando, com um chapéu de palha e uma camisa da ACVI – assim o identifiquei. Ele não esperava nem a mim nem aos meus amigos e quando me perguntou “veio ver a cachoeira?”, eu disse que sim, mas que queria passar uns dias no assentamento também, conhecer o lugar e as pessoas. Orlando quase caiu para trás. Assustado, disse que aquilo não ia ser possível, que não sabia como iria atender a mim e aos meus quatro companheiros de viagem, com comida e hospedagem, dizendo: “As pessoas vêm aqui conhecer a cachoeira, ninguém nunca vem ficar aqui no assentamento. Não tenho como atender vocês, do jeito que devem estar acostumados”.
Talvez ele tivesse ficado espantado com nossas caras brancas, de “paulistas criados com vó”. Achou que queríamos luxo, mas com o tempo entendeu que não era isso. Ficamos três noites na escola do assentamento – que estava com as aulas suspensas devido as férias de verão - e nos alimentamos na casa de Orlando. Tempo suficiente para perceber a vida, o substrato de humanidade daquela gente, que lutou muito por aquele pedaço de terra, que se doa para manter ali o que pode se chamar de dignidade.

Voltei um ano depois, em janeiro de 2012, para dar sequência ao meu trabalho de conhecer aquela gente. Dessa vez, consegui me programar com Orlando, através do único orelhão que funciona no assentamento (as casas apesar de possuírem televisão e rádio não têm telefone). A casa de Orlando já tinha passado pela segunda etapa de reforma e ele pôde me receber como hóspede, com toda sua simplicidade, um luxo de hospitalidade. Orlando foi meu guia não só nas cachoeiras, mas dentro do Assentamento. Apresentou as pessoas, me levou aos lotes onde têm roça, contou histórias mostrou a região. O que consegui absorver disso tudo é o que pretendo passar nesse trabalho que, agora, tem um tema definido, um recorte que para mim conta a história da Chapada Diamantina, através do contraste entre o meu imaginário de turista e a realidade de quem vive à margem desse turismo: o Baixão.

Em 1998, 300 famílias de sem-terra  invadiram uma fazenda ao sul do Parque Nacional da Chapada Diamantina, no município de Itaetê. A região já era permeada pelos movimentos referentes à reforma agrária desde a década de 50, quando foi criado o Projeto Integrado de Colonização de Andaraí (em área que hoje pertence à cidade de Itaetê),
(...) “Foram demarcados 285 lotes rurais de 30ha  e  mais  371 lotes urbanos de  800m2, sendo ocupados apenas 284 dos lotes rurais. As famílias que ocuparam os lotes têm sua origem na região, não se tendo registro dos critérios utilizados para a seleção das mesmas.” (MURITIBA, 2008, p.97).

 

Os moradores de Colônia não tiveram êxito em manter suas terras e a prosperidade. Foi principalmente dali que saíram as pessoas que, em março de 1998, invadiriam a Fazenda Brasilândia e o lugar foi oficializado como assentamento oito meses depois. “Os colonos, diante das dificuldades, começaram a vender os lotes para fazendeiros que chegavam a deter mais de uma dezena deles, concentrando a terra mais uma vez. Os assentamentos de reforma agrária da região contam, hoje, com uma grande parcela de assentados originários de Colônia, filhos que se dividem entre a velha e uma nova família constituída.” (MURITIBA, 2008, p. 78).

No começo, foram apenas barracos de pau e lona, onde se instalaram as 140 famílias que formariam o Assentamento Baixão. As primeiras diretorias da Associação de Moradores tiveram em sua formação filhos dos líderes em Colônia, por serem pessoas engajadas no processo da reforma agrária e cientes das necessidades de um assentamento, das dificuldades para se estabilizar como uma sociedade. Além disso, tinham os problemas de Colônia como exemplo a não ser seguido. (...) “Criados os assentamentos, começa uma nova luta, para manter o povo na terra conquistada e consolidar como assentados. Será necessário a territorialização da população assentada, uma nova estrutura social em um novo espaço.” (MURITIBA, 2008, p. 93).

Diferente de outros assentamentos da região, que nasceram na mesma época do Baixão, a união entre as pessoas não estava apenas ligada ao momento de invadir uma propriedade, ali não houve espaço para lutas de poder e egoísmo. Percebe-se que a união das pessoas em prol de um bem comum (o desenvolvimento do povoado) culminou na participação efetiva de quase todos nas assembleias, reuniões propostas pela diretoria, segundo Rosa, da Associação de Mulheres, líder nata da comunidade. “Aqui no Baixão, a diretoria foi toda formada por filhos de assentados na Colônia, filhos de pessoas que eram engajadas no movimento e que ensinaram isso em casa.”.

Hoje, o Baixão é um assentamento formado por casas de alvenaria, com água encanada e energia elétrica, além de dois lotes rurais por família - onde plantam o seu sustento e vendem o excedente. A organização do Baixão, em busca de projetos para se estabilizar e se formar como uma sociedade sólida, é o diferencial para o desenvolvimento ali encontrado. (...) “Dos primeiros projetos criados, entre 1997 e 2000, o PA Baixão configurou maior amadurecimento no processo de territorialização da população assentada, que desde a seleção, no momento da legitimação do projeto pelo INCRA, demonstrou autonomia.” (MURITIBA, 2008, p.114).



O primeiro passo do grupo assentado para a organização social é a apropriação e uso das benfeitorias (estruturas) herdadas da fazenda assentada, (MURITIBA, 2008, p. 128). (...) “A gestão dos bens de uso comum, a partir da criação do projeto, é a primeira motivação para a construção social”. No Baixão, o curral e a balança da fazenda são utilizadas para o manejo bovino. Os tanques e reservatórios, além de uma motobomba, abastecem a maioria dos lotinhos. A casa-sede está sendo reformada para que seja estabelecida ali uma pousada a fim de receber visitantes.



Ao começar a conversa sobre turismo com as pessoas do Baixão, nota-se que para algumas a atividade é uma possível realidade, mas para outras é coisa de menor importância, uma vez que o sustento provém da agricultura familiar. Uma vez, que apesar de estar estabelecida ali uma associação de condutores de visitantes, ainda não existe uma estrutura para receber grande número de turistas - o que também não parece ser uma meta, considerando que a pousada em construção tem quatro quartos com espaço para acomodar no máximo 16 pessoas. O local tampouco oferece os atrativos comerciais que um visitante comum espera encontrar: lojas de souvenir, restaurantes, venda de pacotes com roteiros turísticos etc.
 

Somente agora, quase 30 anos depois dos primeiros incentivos turísticos serem destinados à Chapada Diamantina, o assentamento começa a entrar no roteiro de algumas agências de viagem de Lençóis ou de alguns turistas mais aventureiros que decidem optar por uma viagem fora dos padrões. Segundo Orlando, ano passado, aproximadamente 60 pessoas visitaram a Cachoeira Encantada e a maioria delas sequer ficou algum tempo no assentamento. O Baixão, apesar de seu potencial natural, ainda não está nos mapas de viagem e é bem claro que as pessoas ali não estão paradas, esperando isso acontecer para poder viver.

“Outras rendas são geradas, em grupos mais restritos, por atividades não agrícolas, desenvolvidas basicamente no próprio assentamento, provenientes de iniciativas individuais e/ou experiências trazidas das diferentes trajetórias de vida. Estas atividades incluem pequenos comércios locais, revenda de produtos do assentamento, manejo de máquinas e equipamentos, construção civil, artesanato e “guiagem” de visitantes em turismo ecológico está ainda em fase inicial de implementação.” (MURITIBA, 2008, p.164).

No lugar de lojinhas e cybercafés, encontram-se ali as estruturas básicas necessárias à vida: uma escola, um campo de futebol, algumas igrejas de diferentes religiões, uma caixa d’água... e pessoas. Pessoas que por si só contam a história de meio século de dores, alegrias, as conquistas da evolução social, em busca da qualidade de vida possível. É chegar em um lugar e ver que o caminho para a cachoeira é o caminho da roça. Quase que metaforicamente, para chegar ao atrativo turístico, é preciso passar pelos lotes rurais que foram divididos entre as famílias de assentados e ver as suas criações de animais e plantações. “Apesar da escassez de serviços e infraestrutura produtiva, a população assentada, principalmente do Projeto Baixão, tem na agropecuária, a principal estratégia para sua reprodução social” (MURITIBA, 2008, p. 170).

Uns plantam milho, outros amendoim, outros mamona, além de algumas outras hortaliças, leguminosas e frutas – o suficiente para consumo próprio e algum excedente para troca ou venda. Alguém pula da carroça para abrir uma cerca e, mais adiante, outro come uma melancia numa sombra. Conviver com as pessoas e a sua realidade passa a ser mais presente na viagem do que ir para a cachoeira. A natureza, sempre presente na Chapada Diamantina, continua a ser a principal atração, mas o que predomina no Baixão é a natureza humana. O contraste entre o imaginário do turista e a realidade encontrada fica cada vez mais evidente. Como Orlando diz em diversas situações: “A gente não quer que ninguém ache que a vida da gente é melhor ou pior que nada”, mas, aqui, a comparação é paradoxal, uma vez que os parâmetros são muito distantes. Ele ainda complementa: “A gente só quer que respeite o nosso jeito de viver”.

As casas têm antena parabólica e televisão numa proporção muito maior do que aquelas que têm geladeira, como demonstrado em pesquisa por Muritiba. Enquanto passava por uma casa, vi que assistiam à novela e parei à janela bem na hora da abertura e o título dizia “A vida da gente”. Da gente quem? me perguntei. Para conhecer a fundo o Baixão, é preciso se despir do que achamos saber sobre aquele ou qualquer outro lugar, deixar de lado aquilo que procuramos e nos permitir que as coisas nos encontrem. Procurar um novo olhar, um registro não comparativo, antianacrônico.
Assim, muitos foram os dias em que eu saí à rua sem minha câmera, para tentar apenas conviver ali sem interferir, sem colocar nada à minha frente. Os primeiros dias foram assim. E conheci Wando, Vera, e outras pessoas que de longe já sabiam quem eu era e onde eu estava hospedado. Descobri que um rapaz era o responsável por levar doentes ou grávidas a Itaetê e que a missa seria celebrada de mês em mês e não de dois em dois meses, como era até o ano passado. Fui contagiado pela euforia de quem descobre algo novo, por aquela sensação de ter conhecido um lugar no mundo para o qual a gente quer voltar sempre.

Para quem vem de fora, a falta de luxo pode se transformar numa linda simplicidade, mas para quem vive ali as coisas não são sempre “mil maravilhas”. O contato com a cidade grande e com o que acontece no mundo e, as outras coisas que existem para além da simplicidade do campo, moram na memória de muitas pessoas. Perguntei o porquê a uma senhora que tinha revelado a sua vontade de ir embora. “Aqui a gente come e bebe, mas o que mais? Quero poder ter uma casa com mobília completa para receber as pessoas. Às vezes, tem coisa que minha filha pede e eu não posso dar. Tenho que pedir meio quilo de carne ao meu pai quando quero comer carne. Aqui, eu só sobrevivo.” Mas por que não vai?, perguntei. “Porque meu marido não sai daqui por nada”, ela respondeu. O pouco que eles têm, conquistaram com suor, independente de posicionamento político sobre a reforma agrária. Percebe-se que mesmo sem ter luxo ou riqueza material, as pessoas dão muito valor àquilo que conseguiram: terra para plantar, casa para morar, família para viver